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O Morro de São Paulo continua lindo…

Assuntos: Turismo e Hospitalidade, , , , , , , Data: 23 de dezembro de 2015 - 19:26 Autor: Regina do Couto Visualizações: 1667.
Morro-de-Sao-Paulo-Tinhare-Canoas
Rio Una, canoas – crédito Marcelo Bruzzi

O Morro de São Paulo é um lugar mágico. Um balneário piscoso e turístico, rodeado de arrecifes e manguezais, cheio de histórias, onde o tempo e o espaço têm uma singularidade rara. Diga-se o que se disser, a comunidade do logradouro não sentiu a crise econômica que o país atravessou em 2015. Pelo menos não como tantos outros brasileiros.

Situado no contexto paisagístico da Costa do Dendê, na Bahia, com o agradável clima das ilhas do Arquipélago de Tinharé, Município de Cairu; a beleza das suas enseadas e praias, a exuberância das florestas de Mata Atlântica, restingas e manguezais; o ambiente hospitaleiro, os sítios históricos e monumentos remanescentes do Brasil colonial; a prática de surfe e esportes náuticos e uma incrível infraestrutura de serviços e hotéis, restaurantes, clubes e discotecas, o Morro de São Paulo é um dos principais destinos do país.

Muito popular, sobretudo pela agitada vida noturna, o Morro de São Paulo, é ponto de referência para pessoas do mundo todo. A temporada de festas, tradicionalmente, começa em dezembro, com o Réveillon e termina após o Carnaval, com os shows e festividades da ressaca, voltando a se aquecer nos feriados entre o outono e a primavera. O horário típico para os turistas clubbers se inicia com happy hours, no por do sol, seguindo aos luaus, jam sessions e discotecas à noite, para finalizarem nos clubes das praias no nascer do sol.

Morro de São Paulo - Praia do Porto de Cima - Marcelo Bruzzi
Praia do Porto de Cima – crédito Marcelo Bruzzi

Cairu (do tupi “Aracajuru”, a casa do sol), como a maioria das cidades históricas da Bahia, tem um rico patrimônio imaterial da sua herança, sobretudo, portuguesa e africana, manifesto na sua música, expressões, linguagem e costumes, mitos e lendas; e nos festejos religiosos e dançantes de São Benedito e São Gonçalo, S. Francisco, o Divino, S. Pedro, N. Sra. da Luz, S. Cosme e S. Damião, do Rosário, o Terno de Reis, a Yemanja, os Congos, a Chegança, a Marujada, os Mascarados (Caretas, Mandus, Zambiapungas). Grandes esforços vêm sendo efetuados pelo Poder Municipal em prol do resgate e da manutenção desses bens.

Há 6 anos, a Prefeitura Municipal de Cairu vem promovendo um festival de música no Morro de São Paulo que reúne artistas do cenário nacional e regional durante 3 dias, evento de relevância extraordinária para a democratização da cultura.

E é justamente essa mistura entre cosmopolitismo e anacronismo, entre o admirável velho e o mundo novo que cativa os visitantes e atrai novos moradores, ano após ano.

MORRO DE SÃO PAULO E UMAS BREVES HISTÓRIAS DA CAROCHA

O Morro de São Paulo é um dos povoados do Arquipélago, localizado a 13°22’ S e 38°54’ O do Litoral Sul do Estado da Bahia. As povoações do Arquipélago datam dos primórdios da colonização brasileira. Em março de 1531, o explorador português Martim Alfonso de Souza, vindo de Salvador a caminho do Rio da Prata, visitou a enseada e suas ilhas, batizando-as de Tynharea, em tupi, terras que avançam para o mar.

O nome Morro de São Paulo aparece nas crônicas pela primeira vez em janeiro 1535, quando o lugar-tenente do donatário da Capitania dos Ilhéus, aportou ali com 3 barcos, 250 colonos e a intenção de estabelecer a sede da capitania na ilha. Pouco tempo depois, ao descobrir que as terras de Tinharé não eram propícias à plantação de cana-de-açúcar, a colônia foi transferida para 150 km mais ao sul, onde fundou-se São Jorge dos Ilhéus.

Os anos que se seguiram foram pontuados por graves conflitos entre colonos, Tupinambás e Aimorés até a decisão de repassar a terra, então conhecida como a ‘Sesmaria das Doze Léguas’, aos Jesuítas, que fundaram praticamente todas as cidades atuais da Costa do Dendê (Cairu, Taperoá , Ituberá, Igrapiuna, Camamu, Valença).

Morro de São Paulo já ficava, então, na fronteira entre as duas capitanias, Ilhéus e Salvador, numa clássica área de conflitos de competências e de atividades ilegais, com uma enseada que oferecia boas condições de abrigo e abastecimento, fora da legislação de Salvador e sob pouco controle da sede de Ilhéus, afastada e então cheia de problemas, transformando-se numa espécie de zona franca, frequentada por piratas e contrabandistas. A questão sobre os limites exatos entre as duas capitanias não foi esclarecida até meados do século XVII.

No princípio do séc. XVII, o Arquipélago experimentou uma ascendência econômica, refugiando os colonos dos ataques constantes dos Aimorés às freguesias, vilas e engenhos continentais. Em 1624, uma esquadra holandesa comandada por Johan van Dortt aportou na enseada, onde permaneceu por um ano, até que os portugueses conseguissem derrotá-la. Por sua posição estratégica, Tinharé continuou recebendo visitas e sofrendo saques de naus holandesas, pelos próximos 6 anos, ensejando a construção da fortaleza em 1630.

Morro de Sao Paulo - Fortaleza - Tapirandu
Morro de São Paulo – Ruínas do Tapirandu – crédito Marcelo Bruzzi

No séc. XVIII, os embates dos bandeirantes contra os índios permitiram a recolonização das antigas povoações. Negócios clandestinos se realizavam livremente no canal de Tinharé, por onde escoava a produção regional de ouro e madeira de lei, entre outras. Cairu, então, cultivava cacau, café, mandioca, arroz e milho e as ilhas forneciam madeira e piaçava, contribuindo com pesados impostos durante 30 anos para a reconstrução de Lisboa, após o terremoto de 1756.

Morro de São Paulo - Cairu - Convento de Santo Antônio
Cairu – Convento de Santo Antônio

Entre os séculos XIX e XX, o Morro de São Paulo ainda serviu como base para as operações da primeira esquadra brasileira nas lutas pela independência, mas, perdendo sua importância estratégica e militar, passou a funcionar como vila de pescadores e silvicultores, além de oferecer segurança à navegação regional, pela presença do farol (1853). Durante mais de 100 anos vivenciou o abandono e a decadência econômica.

Pan-Américas de Áfricas Utópicas

Foi somente a partir da segunda metade do séc. XX que o Morro de São Paulo passou a ser apropriado por turistas e veranistas. A energia elétrica chegou à ilha por volta de 1986 e os telefones em 1992. O crescimento nos anos oitenta e noventa se intensificou, proliferando o número de embarcações e meios de hospedagem, abrindo as pistas de pouso das fazendas ao uso público, trazendo investimentos, inclusive estrangeiros, produzindo consideráveis mudanças, em atendimento às crescentes demandas turísticas.

Antropologicamente, o Morro de São Paulo se constituiu como uma sociedade multicultural em todos os seus aspectos, abrigando grupos diversos, de diversas procedências, que, devido à configuração geográfica do logradouro, misturam-se nos ambientes de convivência social e se aculturam, dividindo e assimilando saberes.

Estes aspectos, sobretudo sua influência no modus vivendi da sua sociedade, vêm se refletindo, durante mais de 30 anos, na criação de uma estética local e de uma identidade sociocultural que diferenciaram o Morro de São Paulo dos demais destinos turísticos da Bahia, do Brasil e do mundo, atraindo milhares de visitantes e novos investimentos, todos os anos, num fenômeno absolutamente espontâneo.

GEOGRAFIA

Os adensamentos populacionais mudaram rapidamente o cenário morrense, fato que contribuiu com a rápida evolução urbanística do logradouro. Dados extraoficiais estimam que a população do Morro de São Paulo, em 2015, tenha ultrapassado a faixa de 8.000 habitantes, contra pouco mais de 200 na década de 1980.

O Município de Cairu, hoje, com área territorial de 460.981 Km², tinha população, estimada pelo Censo Demográfico do IBGE em 2010, de 15.374 habitantes, divididos em três principais ilhas do Arquipélago de Tinharé: Cairu, Tinharé e Boipeba. Gamboa do Morro é um dos quatro distritos que compõem o município e hoje o mais densamente habitado.

Baías da Bahia e a tal da “praia da argila”

Morro de São Paulo - Gamboa do Morro - falésia
Gamboa do Morro – “argila”

Inseridas no contexto geológico da Bacia de Camamu, que controla a morfologia costeira desta região, as praias do Arquipélago são compostas principalmente por arenitos, carbonatos e folhelhos (BARBOSA & DOMINGUEZ, 1996 apud SILVA, IRACEMA ET AL, 2009). A combinação da sua herança geológica e os diversos episódios de subida e descida do nível relativo do mar ocorridos durante o período Quaternário é responsável, em grande parte, pela atual configuração da linha de costa.

Na Praia da Gamboa do Morro, a oeste de Tinharé, há um afloramento de arenito e carbonato que gerou uma falésia, em franco processo de recuo, criando uma superfície de abrasão formada pelo material mais resistente. A existência destas rochas propicia um contorno bastante recortado na linha de costa e gera pequenas enseadas.

Suas planícies costeiras foram formadas a partir de depósitos das regressões marinhas que ocorreram após as Transgressões do Pleistoceno e do Holoceno, há milhares de anos (BITTENCOURT ET AL, 1979, apud SILVA, IRACEMA ET AL, 2009).

Essas planícies eram, em geral, cobertas por comunidades vegetais de restinga, hoje já bastante adaptadas morfologicamente pelo uso do solo e as condições de ocupação e exploração turística.

NEM TUDO É CARNAVAL NA CASA DO SOL

Com efeito, o Morro de São Paulo do séc. XXI continua um logradouro visivelmente mutante e multicultural. Entretanto, tais mudanças lançam importantes desafios à sua população e aos seus governantes. Entre eles, o dever de manter suas tradições de logradouro multicultural e de preservar seus monumentos e tradições mais antigos, sua diversidade étnica, a partir da sua reurbanização, com sérios investimentos nos processos educativos e organizativos.

E, sobretudo, a responsabilidade de equacionar, através de uma discussão mais ampla sobre o crescimento urbano, os programas e recursos governamentais e privados, o cuidado do meio ambiente. Talvez, esse seja o maior desafio do Município de Cairu: contornar o congestionamento residencial de alguns bairros e a precariedade dos ambientes construídos que criam condições propícias para situações de vulnerabilidade social. E, ao mesmo tempo, buscar estruturas de oportunidades e condições adequadas para que esses assentamentos e empreendimentos turísticos, já consolidados, se coadunem de forma mais harmônica com a capacidade de suporte e os níveis de resiliência dos ambientes naturais.

De toda sorte, o Morro de São Paulo continua lindo…

Morro de São Paulo - Praia do Porto de Cima
Praia do Porto de Cima – Yacht Club – crédito Marcelo Bruzzi

 

 

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Comentários

10 comentários para “O Morro de São Paulo continua lindo…”

    1. Mário, ficamos contentes que nosso conteúdo esteja despertando sensações nos leitores. Esta é, justamente a nossa ideia. Promover lugares, pessoas, tecnologias, empresas, sempre a serviço da informação, da experiência e das conexões.

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